O desassossego

O ser humano é uma criatura incompleta e o mais triste de sua incompletude é a consciência de sua existência. Toda pessoa busca, em algum momento de sua vida, algo que a faça se sentir bem, pois há uma espécie desassossego que aflige a todos, indiscriminadamente, combatê-lo é tarefa árdua e, para cumpri-la, é necessário armar-se. O tempo é implacável, acostume-se a tê-lo como seu maior inimigo, pois ele sempre será o seu maior empecilho, ele se estenderá quando isso for um martírio, mas também saberá se comprimir quando você mais precisar dele. A vida não se importa se você está triste ou feliz, ela segue adiante e o melhor caminho a se seguir é sempre acompanhá-la, para isso é necessário que você busque algo.

Todo ser humano precisa de um hobby ou de um vício, mesmo que ele vire uma paixão. Todos estamos fadados a extinção, não existe, ainda, nenhum caso de alguém capaz de viver para sempre, mas se um dia surgir, esse texto não terá mais sentido, sugiro que o rasguem, no caso específico dele será mais fácil apagá-lo. O mundo é um lugar triste e desigual, erigido por guerras e misérias, cheio de desgraças e mágoas, decepções e desilusões, se passássemos a maior parte de nosso tempo pensando nessas coisas só poderiam acontecer duas situações, ou nós encontraríamos um jeito de solucioná-las e extingui-las, ou então nós simplesmente entraríamos em um estado de depressão generalizada, eu tendo a acreditar muito mais na segunda opção. Não foram criados meios de acabar com as mazelas sociais, mas foram feitos inúmeros meios de tornar a existência algo agradável, independente dos problemas enfrentados pela humanidade.

Existem vários tipos de hobbies, que podem ser os mais variados, tais como esportes, jogos, músicas, poesias e diversos outros. Um hobby levado ao extremo pode virar vício, mas não cabe a eu julgar se isso foi necessário ou não, existem pessoas que não se satisfazem apenas com hobbies, eles precisam realmente de vícios para superar aquele desassossego sobre o qual eu havia falado, mas, enfim, esse realmente não é o ponto sobre o qual eu quero falar. Fiz todo esse devaneio para falar sobre um modo de encarar a vida, o RPG.

Desde criança eu estive imerso no mundo da imaginação, para isso eu tive o auxílio de filmes, livros e desenhos. Era incrível poder ver os heróis em ação, torcer para que Hank, Sheila, Presto, Diana, Bobby e Erick enfim conseguissem voltar para casa; esperar ansioso para que os cavaleiros de bronze conseguissem salvar Atena antes que a última chama do relógio do Zodíaco se apagasse; eu quase não acreditei que Bastian pudesse salvar a imperatriz do mundo da fantasia; foi com muita entusiasmo que eu presenciei Connor Macleod decepar a cabeça de Kurgan e, com isso, se tornar o último. Eu poderia passar horas descrevendo todas as aventuras que já assisti, li, ou simplesmente ouvi falar, mas não teria nenhuma para falar sobre as que eu vivi.

A realidade é tão cruel que ela não lhe dá aventuras, nossa vida é recheada de tarefas monótonas e, como disse Tyler, “temos empregos que não gostamos para comprar porcarias que não precisamos”, nossas grandes aventuras serão no máximo encher a cara com os amigos, correr depois de apertar uma campainha, enfim, nunca salvaremos um reino, nunca seremos o escolhido para salvar o mundo, nunca vamos viajar no tempo, nunca vamos superar todos os limites do corpo humano, seremos pessoas normais, com vidas normais, que se aprazem vendo histórias sobre grandes feitos. Não se iludam, nem mesmo as pessoas ricas têm essas aventuras, elas gastam dinheiro como um meio de suprir aquele conhecido desassossego, mas, não raro, acabam por não conseguir. Nós somos fãs de artistas porque acreditamos que eles já supriram aquele pedaço que nos falta, mas isso não é verdade, eles são tão humanos quanto nós mesmos. Arnold Schwarzenegger não é o Conan, por mais que ele tenha vencido na vida, sido o maior ícone de um esporte, governador de um dos estados da maior superpotência do mundo, rico e desejado por uma legião de fãs, ele na realidade não foi Conan, ele não matou seus inimigos, esmagou seus crânios e viu suas viúvas chorarem, sua vida, por mais vitoriosa que tenha sido, foi, e ainda é, humana, grandes aventuras estão apenas nos livros, filmes e desenhos. Dito isso, ainda assim, creio que nos momentos em que ele interpretou o bárbaro ele pôde fugir da realidade e durante aquelas gravações ele também pôde ser mais do que humano, ele pôde ser um herói.

O RPG nos dá a oportunidade de sermos mais que humanos, podemos ser heróis, ou vilões, no fim é você quem decide, nele você não precisa ter um emprego tedioso, você pode simplesmente ser um mercenário e viver de suas aventuras, você pode salvar reinos e conquistar princesas, pode derrotar tiranos e monstros, você pode ser o intrépido protagonista de uma aventura e durante esse período você será completo, não haverá desassossego em sua alma. Jogar RPG é mais complexo do que se imagina, não é apenas jogar dados e ler regras, jogar RPG é um estilo de vida, é armar-se contra a incompletude do ser humano, é desafiar o desassossego que aflige a humanidade e tornar-se mais que humano, é virar o principal agente de uma equação.

Texto escrito integralmente por Samuel Feitoza da Taverna do Dragão!

 

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