Um mal necessário

Saudações, aventureiro desbravador de tocas, vamos a lugares onde bodes não são sacrificados, mas sim exaltados em nome do poderoso Bodão. Mais uma quinzena se passou e já fui convocado de meu sono eterno para devanear novamente. Siga-me amigo leitor em mais um raciocínio pouco linear.


“Do pó vistes, ao pó retornará” disse o pregador, esse livro tão antigo quanto a mortalidade humana, essa única frase serve como moral da história de Avengers: Infinity War, se você não pegou a referência Steve, não perca tempo, vá assistir ao filme e prometo que você não se decepcionará, caso se decepcione é bem provável que a decepção seja você, ou então pode ser que você seja exigente demais, daqueles que conseguem achar defeito em obras perfeitas como o Taj Mahal, Os irmãos Karamazov, a Quinta Sinfonia, a Muralha da China, a Paolla Oliveira, entre outros. Ouça o que eu digo, ou no caso escrevo, esse filme será o marco da história cinematográfica geek moderna nessa segunda década do século XXI, assim como Star Wars o foi nas décadas de 70 e 80.

Gostei tanto do filme que, como bom leitor de tragédias, preferia até que ele não tivesse continuação, dificilmente a próxima película conseguirá ter um final tão bom quanto o desta, vivemos na época dos finais felizes, eles têm predominado na nossa cultura, algo que quebre esse paradigma me faz sentir melhor, faz com que eu tenha fé na humanidade, com que eu acredite que a pieguice deixará de ser o padrão, mas infelizmente o filme terá uma continuação que fará o milagre de Jesus para com Lázaro ser algo comum. Só tem uma coisa que gostei mais do que o final do filme, o vilão.
Não lembro bem como a conversa começou, mas em algum ponto de uma prosa comum um amigo me disse que “o advento de Thanos provavelmente será para a próxima geração o que o de Darth Vader foi para a nossa”, inicialmente eu não me importei muito com o que ele disse, mas hoje eu vejo a importância disso, a posteridade precisa de um grande vilão. Os mais puristas dirão que Thanos foi criado antes de Darth Vader e que se fosse pra ele ser tão conhecido quanto o lord sith isso já deveria ter acontecido, mas ressalto que nossa sociedade é essencialmente audiovisual, para boa parte da civilização contemporânea o titã é novidade, as revistas foram deixadas para segundo plano, são os filmes que são lembrados e cultuados na posteridade. A nova franquia de Star Wars poderia ter criado novamente o grande vilão da década, mas a Disney preferiu criar um príncipe encantado anti-herói, um moleque imberbe que parece mais um Backstreet Boy do que a personificação do mal e ainda fizeram a proeza de dar uma morte ridícula ao seu mentor, tornando esse personagem sem graça o vilão dessa trilogia, muitas pessoas gostaram, eu sei, mas muitas pessoas gostam de coprofilia e isso não faz com que deixe de ser uma merda.
O vilão é uma peça fundamental de todas as histórias, se você tem um bom vilão você terá uma boa história. A presença do mal é tão importante que várias histórias não fariam sentido sem ela, vocês já imaginaram o que seria de Deus sem a figura do Diabo? Um ser infinitamente piedoso e benevolente não poderia educar um ser humano se não houvesse um cara que faz com que quem não siga os preceitos divinos sofra por toda a eternidade. São numerosos os casos em que o antagonista é mais bem quisto do
que o protagonista, isso porque ser o vilão não significa que ele deva ser odiado, mas sim que ele é a outra parte da moeda, tão importante quanto a principal, afinal, uma moeda só tem valor se tiver cara e coroa.
Toda campanha de RPG deve ter um vilão, não um ladrão de galinhas, nem um assaltante de bordel, mas um vilão, aquele personagem que você quer derrotar a todo custo, aquele cara que torna a sua aventura difícil e, por isso, divertida. Criar um vilão não é tão simples quanto parece, pois ele é o personagem mais complexo de toda história, são várias as características que esses personagens apresentam, mas isso não significa que não existam as mais importantes. A primeira coisa a ser fazer quando se cria um vilão é dar um motivo para sua vilania, seja ele por poder, vingança, loucura e qualquer outra coisa que faça sentido, um vilão sempre deve ter uma motivação e ela deve ser criada com coerência, fazer com que uma pessoa vire um terrorista frio e megalomaníaco porque foi deixado esperando na festa do réveillon é o exemplo claro da falta de verossimilhança, a falta de sentido desse personagem reflete drasticamente no enredo; a segunda coisa que um vilão deve ter é respeito, um bom vilão deve inspirar respeito até mesmo por seus adversários, mesmo que eles o odeiem, mesmo que eles tenham medo dele, mesmos que ele tenha feito as coisas mais torpes, o vilão deve ter um presença respeitável; terceiro, mas não menos importante, um vilão deve ser poderoso, deve apresentar um desafio quase intransponível para o herói, mas apenas quase, vilões literalmente imbatíveis tendem a tornar a historia ruim, os protagonistas devem dar tudo de si e mais um pouco para vencê-lo.
Thanos com certeza reúne os melhores atributos que um vilão poderia ter, sua motivação deriva da loucura, do amor, da cruel coerência da vida (é bem provável que ele tenha conversado com Quincas Borba sobre a sua teoria das batatas) e da vingança, tudo isso junto e reunido em um personagem complexo e verossimilhante; a presença de Thanos é inspiradora, apenas a remota citação de seu nome faz com que todos temam a sua presença e respeitem a sua ameaça, não é simples criar essa atmosfera em torno de um personagem; por fim, podemos ver que Thanos é a personificação do poder, mas que não é imbatível, os protagonistas estiveram bem próximos de derrotá-lo em pelo menos dois momentos. Toda história deve ter um vilão como o Thanos, aventuras de RPG devem ter um antagonista bem criado, ele fará com que os heróis tenham o ímpeto de completar sua missão. O mal e necessário em todas as histórias e mais necessário ainda é que ele seja bom.

Texto escrito integralmente por Samuel Feitoza da Taverna do Dragão!

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