É preciso trair para ser humano

Saudações aventureiro desbravador de tocas. Depois de longo período de estiagem, sob o efeito de um torpor duradouro, eis que surge o verão, para extinguir o outono que perdurava em meus escritos. Sem mais delongas, lhes apresento mais um devaneio de uma mente pouco esclarecida.


A traição é um substantivo que reflete a alma do homem, é inerente ao ser humano trair, como também é amar, sofrer, decepcionar… Alguns podem entender isso como um pensamento pessimista, ou mesmo achar que essas coisas não têm ligação, mas apenas deixem-me destrinchar essa minha síntese e é bem capaz que alguns dessas pessoas venham a concordar comigo. Ser humano não é apenas pertencer à mesma espécie, não basta ser homo sapiens para ser integrante de uma sociedade, pois ela é construída não apenas com membros, mas também precisa de diversos contratos sociais que o homo sapiens deve aceitar para ser considerado um ser humano, não aceitar esses contratos simplesmente te faz ser expulso dela. É bem certo que o ser humano gostaria de ter tudo o que desejasse, mas há esse bendito contrato, assinado sabe-se lá Deus quando, por ancestrais há muitos anos esquecidos, que diz que você deve seguir algumas regras, tais como respeitar direito de propriedade (mesmo que isso não seja muito direito); e respeitar os bons costumes (mesmo quando eles não são bons pra ninguém). O contrato foi feito para que existisse equidade entre os pares, para que nem homem valesse mais que outro, mas até mesmo a mais tenra criança sabe que isso é uma balela, alguns são mais beneficiados que outros e eles legam isso para a sua prole, muitas vezes o contrato foi burlado para gerar esse benefício.

 
Heráclito já mencionou que “a existência é uma eterna luta entre contrários” e eu vou mais longe, “a existência só tem sentido por causa dos contrários”. O feio só existe porque existe o belo, se todos fossem bonitos, ninguém seria. Esse raciocínio se aplica a tudo no mundo, inclusive ao contrato, pois ele foi feito para ser seguido, mas também para ser burlado, dito isso, afirmo, só existem as pessoas fieis porque existem as infiéis. A infidelidade tem sido retratada como arte desde os tempos mais antigos da civilização, a traição de Jasão para com Medéia é tema de uma das maiores peças da antiguidade grega; o medo da traição, incutida pelo bom Iago, faz com que Otelo mate Desdemona, numa das peças mais aclamadas do bardo do Avon. Em suma, as pessoas traem, não por serem ruins, mas para que exista a fidelidade, isso e uma espécie de equilíbrio feito pela natureza.

 
O devaneio foi longo, mas ele tem um fundamento. Partindo para o âmbito das aventuras de RPG, que são o foco dessa toca, venho sugerir uma pitada de humanismo em suas próximas aventuras. É muito comum que os jogadores virem aliados, que façam tudo um pelo outro e tudo ocorra às mil maravilhas, mas isso é tornar a aventura inverossímil, pois o RPG é um simulacro da vida real, como tal deve trazer artifícios da realidade e a traição não pode faltar. Como narrador, sugiro que faça NPC’s que traiam o grupo em determinado momento, isso vai tornar a aventura mais realista e divertida; como jogador, sugiro que traia os NPC’s do mestre em algum momento, seja humano. O que realmente acredito que torne uma aventura divertida é quando os jogadores se traem entre si, em algum momento o mestre deve estimular isso, mas sempre de
maneira coerente. Esse tipo de narração requer uma mesa de jogadores veteranos, que não usem dicas e saibam separar o jogo da vida fora dele. Faça da sua campanha uma aventura humana, inove, traia.

 

Texto escrito integralmente por Samuel Feitoza da Taverna do Dragão!

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